INFLUÊNCIA DO STRESS SOBRE O EIXO HIPOTÁLAMO-HIPÓFISE-OVARIANO E SUA RELAÇÃO CAUSAL COM A INFERTILIDADE



AUTOR: CLEITON RIBEIRO ALVES
CO-AUTORES: Lucas Xavier, Nara Gabriella, Wanessa Gabriela e Jank Simôa Almeida (ORIENTADOR).



INFLUÊNCIA DO STRESS SOBRE O EIXO HIPOTÁLAMO-HIPÓFISE-OVARIANO E SUA RELAÇÃO CAUSAL COM A INFERTILIDADE
           
INTRODUÇÃO

A infertilidade pode ser definida pela incapacidade de gerar filhos depois de um ano de prática sexual sem uso de anticoncepcionais. Diferentes culturas tratam a impossibilidade de gerar e de ter filhos através dos tempos, como algo vergonhoso, associado a um castigo divino. A mulher infértil era vista como amaldiçoada pelos Deuses e muitas vezes maltratada, castigadas e excluídas do convívio social em virtude da sua condição, pois a causa da infertilidade era apenas imputada à mulher (ALMEIDA, 2004). Estes valores, ainda que modificados em parte na cultura moderna, permanecem com força considerável – entretanto, felizmente, há algumas décadas começaram a se considerar os possíveis fatores em que a infertilidade está envolvida. Um desses fatores, o estresse, tem tido uma influência bem acentuada nessa questão.
Por décadas, alguns autores vêm destacando o estresse como fator desencadeante de alterações na função reprodutiva. Foi possível considerar a possibilidade de um evento estressor, conhecido, mas não manifestante, inibir o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HHG) e eixo hipótalamo-hipófise-ovariano (HHO) acarretar irregularidade menstrual, observadas por amenorréia e em seguida por infertilidade (CURY, 2003).
Vale salientar que a influência dos estados psicológicos sobre a função reprodutiva apresenta um perfil multifatorial, sendo muito difícil determinar relações lineares de causa e efeito, visto que o impacto que a condição psicológica tem sobre o organismo envolve uma combinação de fatores, que vão dos traços de personalidade, presença ou não de transtornos mentais à disponibilidade de suporte social e estratégias de adaptação diante de uma situação estressante. Assim sendo, a resposta do sistema endócrino aos estímulos ambientais depende de variáveis biopsicossociais – além disso, a reação endócrina ao estresse é dependente do grau de ansiedade, onde indivíduos portadores de maior nível de ansiedade têm respostas hormonais mais intensas (MOREIRA, 2005).     
O estresse interfere na função reprodutiva em vários aspectos. Sem uma causa orgânica revelada, a supressão dos eventos normais do ciclo reprodutivo é denominada amenorréia hipotalâmica funcional ou de anovulação crônica hipotalâmica funcional. Geralmente, essa anormalidade está ligada ao estresse físico e emocional e, as alterações no balanço metabólico parecem ser a causa principal (MOREIRA, 2005).
Um grande número de casais que procuram os especialistas em reprodução humana se enquadra no que os médicos denominam de esterilidade sem causa aparente, ou seja, após exames, nada é diagnosticado no plano físico que impedisse a fertilização da mulher, e a medicina tenta explicar de forma bastante simples: o casal não consegue ter filhos devido à própria ansiedade em tê-los. Pensando nessa explicação, através do "Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE)", muitos pesquisadores tentaram avaliar em que medida essa variável psicológica pode influenciar o eixo hipotálamo-hipófise-ovariano. Foi possível observar que quanto maior o nível de ansiedade, menor a chance de gravidez em mulheres submetidas à inseminação artificial.
A infertilidade feminina envolve não só a mulher infértil, mas também seu cônjuge e sua família. Então, para os casais que sofrem com problemas de fertilidade, assim como para seus familiares, a biologia da reprodução é um processo árduo – que vai além da escolha de um parceiro amoroso, do ato sexual, da gestação e do parto. A infertilidade pode provocar o reencontro com antigos traumas, perdas, sentimentos de inadequação, ciúme, inveja, surgidos de um intenso estresse devido a não realização da gravidez e das ilusões a ela relacionadas – tudo dentro de um processo marcado por longos períodos de interação com profissionais médicos que terminam por envolver-se intimamente no sistema do casal (FARINATI, 2006).
Faz-se necessário pensar sobre os aspectos que envolvem a infertilidade, em especial o estresse, visto que a não concretização do projeto parental tem sido considerada uma experiência de mortificação biográfica, que envolvem o sofrimento e os conflitos pessoais enfrentados pelas mulheres que vivem esta situação (FARINATI, 2006). É importante ressaltar, que a pressão social e parental para a propagação do nome da família coloca um grande peso sobre os casais inférteis, pois a infertilidade é sentida e vivida como um evento traumático para a maioria deles, sendo experienciada por eles como o evento mais estressante de suas vidas (KLONOFF et al, 2001).

OBJETIVO

  Investigar a relação causal entre o estresse e a problemática da infertilidade

METODOLOGIA
 
  Para o estudo foi realizada uma revisão literária assistemática, no qual foram levantadas idéias de diversos autores sobre a temática abordada, tomando por base o objeto de estudo estresse e função reprodutiva feminina. Foi utilizada a meta-pesquisa simples no portal da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) que reúne artigos indexados em bases científicas de dados como LILACS, IBCS, MEDLINE, COCHERONE E SCIELO para triagem de artigos e demais documentos científicos que pudessem abordar o tema e respondessem as reais necessidades científicas relativas ao objetivo desejado.
Para a escolha dos documentos foram utilizados como Descritores em Ciências da Saúde (DECS) na BVS os termos “infertilidade”, “estresse” e “eixo hipotálamo-hipófise-ovariano”. Foram encontrados 05 artigos publicados em português, entre 2005 e 2010, em duas revistas científicas nacionais indexadas, tendo como assunto principal a relação do estresse na infertilidade feminina. Não foram utilizados outros critérios seletivos de triagem on-line, no referido portal. Entretanto; para que as informações foram completadas, trazendo dados atuais sobre a temática, a busca de documentos afins foi complementada com a utilização do Google Acadêmico como instrumento secundário para coleta. A pesquisa com todo o processo de seleção, recolhimento, interpretação e discussão dos dados foi feito entre os meses de agosto e setembro de 2011.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A infertilidade depende de complexas interações entre o sistema nervoso central (SNC), hipófise, ovários, outras estruturas endócrinas e órgãos reprodutivos. Para ocorrer um ciclo menstrual normal, é necessário que a função ovulatória seja regular, que vai além da integridade anatômica das diversas estruturas do eixo reprodutivo a uma sincronia entre suas ações. Esta função cíclica ovariana pode facilmente ser perturbada por um estresse emocional, levando à interrupção das menstruações temporariamente. O desejo obsessivo de engravidar, por exemplo, pode desencadear amenorréia temporária, tornando a concepção ainda mais difícil. No entanto, é importante levar em consideração as diferenças individuais na resposta a um determinado evento estressor (REMOHI, 1999).
  Percebe-se então, que diferentes mecanismos biológicos que tem relação ou foram desencadeados pelo estresse podem alterar a função reprodutiva a ponto de causar redução da fertilidade. Porém, é complicado estabelecer relações de causa-efeito, visto que as causas de infertilidade são muitas e não envolvem apenas fatores ligados à fisiologia feminina, como também causas masculinas de infertilidade – o que faz com que a infertilidade seja vivenciada pelo casal (MOREIRA, 2005).
A experiência de infertilidade pode acarretar num estigma social, gerando culpa e vergonha, podendo provocar alienações isolamento, resultando em um grau ainda maior de estresse. Pois, uma acentuada queda na auto-estima, cheia de sentimentos de inferioridade, pode acabar configurando quadros importantes de depressão, ansiedade elevada, podendo desencadear severas perturbações emocionais, na esfera da sexualidade e nos relacionamentos conjugais (DAAR, 2002).
É notável a existência de vários sistemas regulatórios, operados a partir de conexões nervosas, neurotransmissores e hormônios, que influenciam os mecanismos reprodutivos. Devido a essas conexões, os agentes estressores reduzem a fertilidade pelas influências que causam nos mecanismos reguladores dos eventos da fase folicular do ciclo menstrual.
A ocorrência de casos de irregularidade menstrual ou infertilidade, simultâneas a um evento estressante, é comum na prática clínica. O efeito do estresse no eixo HHO depende ainda das concentrações de estrógeno. Concentrações elevadas de estrógenos, a ativação do eixo hipótalamo-hipófise-adrenal (HHA) estimula a liberação precoce de LH, de modo que um estresse agudo na fase folicular do ciclo menstrual interfere na maturação do folículo e na ovulação. A ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal pode intervir no eixo HHO de maneira inibitória, em situações de estresse (MOREIRA, 2005).

CONCLUSÃO

Considerando o conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) o qual diz que: “saúde é o estado de completo bem estar físico, mental e social, não se reduzindo a mera ausência de doença ou enfermidade”, observaremos que infertilidade é um grave problema de saúde que desenvolve um sério sofrimento social.
É notável a influência do estresse no eixo hipotálamo-hipófise-oraviano e sua relação intrínseca com a infertilidade, evidenciado por um misto de problemas gerados em todos os aspectos da vivência humana, tanto na esfera individual quanto na esfera conjugal tais como: baixa auto-estima, a tristeza e a depressão, a raiva, a frustração, a culpa, a angústia, entre outras – mostrando a íntima relação entre o estresse, como causa e ao mesmo tempo consequência da obstrução do projeto de ter filho.
Tendo em vista o profundo sofrimento provocado pela infertilidade, o estresse excessivo, o intenso desgaste pessoal, que envolve a relação conjugal e as famílias de ambos, além de um enorme impacto sobre os planos e projetos futuros, os aspectos emocionais envolvidos na infertilidade têm merecido um envolvimento maior não só do indivíduo ou casal infértil, como também dos profissionais de saúde especializados no que diz respeito a essa problemática – visto que a infertilidade é um problema de natureza médica e social.

Descritores: Infertilidade. Estresse. Eixo hipotálamo-hipófise-ovariano.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, A. N.Fecundidade e Contracepção. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.2004 Disponível em: <http://repositorioaberto.univ-ab.pt/bitstream/10400.2/724/1/LC331.pdf> Acesso em 14 de setembro de 2011.

CURY, A. F. Psicossomática da esterilidade: as relações entre o biológico e o psíquico. Femina 2003; 31: 519-521.  Disponível em: <http://www.polemica.uerj.br/ojs/index.php/polemica/article/view/67/134> Acesso em 16 de setembro de 2011.

DAAR, A et al. Infertility and social suffering: the case of ART in developing countries. In: Medical, Ethical and Social Aspects of Assisted Reproduction, Geneva, 2002. Disponível:<http://www.sig.org.br/_files/artigos/aspectosemocionaisdainfertilidadeedareproduomedicamenteassistida.pdf> Acesso em 10 de setembro de 2011.

FARINATI, D. Marcondes. Infertilidade: um novo campo da psicologia da saúde. In: Estudos da Psicologia. Campinas, 2006. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v23n4/v23n4a11.pdf> Acesso em 14 de setembro de 2011.


KLONOFF, et al. A prospective study of stress among women undergoing in vitro fertilization or gamete intrafallopian transfer. Fertilityand Sterility, 2001. Disponível em:<http://www.sig.org.br/_files/artigos/aspectosemocionaisdainfertilidadeedareproduomedicamenteassistida.pdf> Acesso em 10 de setembro de 2011.

MOREIRA, Simone da N. Tomaz, et al. Estresse e função reprodutiva feminina. Rev. Bras. Saúde Materno Infantil. Recife, 2005. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/rbsmi/v5n1/a15v05n1.pdf> Acesso em 13 de setembro de 2011.

REMOHI, J. Indução da ovulação. São Paulo: Atheneu; 1999. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/rbsmi/v5n1/a15v05n1.pdf> Acesso em 12 de setembro de 2011.



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